Dizem que Natal é tempo de resgatar o nascimento de Jesus Cristo em nossas vidas. E resgatar o nascimento de Cristo significa trazer de volta a mesma atmosfera daquele Natal e com todo o simbolismo aí verificado. Renascer significa nascer de novo.
Jesus quer continuar nascendo em nossos corações, em nossas mentes. E para que isso aconteça é preciso que Ele seja gestado em nosso ser. Como fizera Maria que no tempo do advento – da anunciação do Anjo até o nascimento do Menino – gestou-O em suas entranhas. E aqui está a grande dificuldade para o mundo atual, o grande empecilho para o renascimento de Jesus Cristo é que não conseguimos gestá-Lo em nossas entranhas, pois nossas práticas estão longe de ser atitudes gestadoras do verdadeiro amor que Ele quis revelar.
Gestar Jesus Cristo não é praticar essa religiosidade piegas que consiste e participar dos cultos dominicais e, às vezes, servir às pastorais de altar, praticando uma caridade materialista, como muitas vezes fazemos e nos inflamos de orgulho, iludidos de que estamos servindo à uma grande causa.
Gestar Jesus em nossas vidas significa imitar Maria que, ao tempo que gestava o Filho de Deus em suas entranhas, saiu do seu mundo, da sua realidade e foi servir a velha Isabel – figura que na Bíblia representa o mais fraco que precisa de ajuda. Com esse gesto Maria demonstrou ter consciência de seu papel na história do povo abandonado a sua sorte pelos Herodes e Romanos do mundo, mas amado pelo Deus da Vida.
Maria, ao tempo que serve, demonstra o porquê de sua escolha para fazer humano o Deus que quisera fazer-se Homem. No Magnificat, diz Ela que o seu Deus – aquele que fez maravilhas e será revelado ao mundo na pessoa do fruto bendito que sairá de suas entranhas – é o mesmo Deus que olha para a humildade de seus servos, Nela representados.
Que o Deus Nela gestado é o mesmo que fez e faz grandes coisas em favor dos simples e humildes do povo ao longo da história; é o Deus Santo, cuja misericórdia se estende às gerações; é o Deus que mostra o poder de seu braço e dispersa os orgulhosos, desfazendo seus planos; é o Deus que derruba de seus tronos os poderosos e eleva os pequenos; é o Deus que enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazia; enfim, é o Deus que lembra seus servos – aqueles que servem e libertam os mais fracos como fizera Maria – porque assim é sua promessa desde os tempos de seus antepassados.
E a promessa é o Menino que, na fragilidade de uma criança mostrará a grandeza de Deus. E bem-aventurada é aquela que o gestou. E o gestou primeiro em sua consciência de mulher solidária no meio de sua gente sofrida, serva servidora e portadora da esperança, às vezes já perdida pelo seu povo.
Natal é isso. O Deus, Eterno e Todo Poderoso, não quis ficar eternamente Deus. Quis ser um de nós. O Verbo se fez Carne e habitou entre nós. Assumiu nossas quedas, sofrimentos, lutas, vitórias e alegrias. Já não estamos a sós nessa história. Mais uma vez Deus ouviu nosso clamor. Ouviu e veio armar sua tenda no meio de nós! Veio se indignar conosco contra todos os males engendrados pelos poderosos deste mundo. Veio manifestar seu amor por nós na vida de um menino, sinal de contradição, como disee depois o velho Zacarias. Veio nos dizer que está conosco e por isso não temos o que temer na luta.
Natal não é encher-se de presentes nesse materialismo exacerbado da sociedade de consumo. Não é só comer e beber feito porcos espirituais, numa festa destituída da atmosfera do verdadeiro Natal. A natividade do presépio, onde vemos Maria, o bom José que, é o nascimento de um Deus que fez Homem na fragilidade daquele Menino.
E por fim, lembramos de que a cidade de Belém tomada por gente de todos os lados disse não ao Deus que ali quisera nascer. Portanto, nasceu na periferia, no estábulo, perto dos animais, longe dos palácios (hoje mansões), fora do Templo (hoje Igrejas que se abarrotam de alienados que cultuam um Deus que não existe biblicamente), longe das hospedarias (hoje nossos corações ocupados com as coisas deste mundo).
O Deus revelado no mistério da encarnação é o Deus conosco, Emanuel! Aquele que veio para o que era seu, mas foi rejeitado e se revelou aos Magos (Sábios de outras terras, de outras religiões), numa amostra que o verdadeiro Deus rejeita as coisas oficiais, inclusive as religiões; um Deus que se faz anunciar aos pastores, os economicamente desprezados, os profissionalmente inferiores. Pense nisso antes de arrotar-se feito um porco guloso e rezar/orar como um crente alienado!
ANTONIO SALUSTIANO FILHO, advogado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário