sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ano Novo. É preciso resgatar o sonho da vida.

No final do ano costumamos refletir sobre o que passou nos últmos 365 dias que passamos por essa existência. Alguns, vão mais longe nessa tarefa da introspecção. Esse olhar para para si mesmo, sem a autopiedade que é o pior dos sentimentos que podemos cultivar. E quando olhamos para o nosso passado isento dessa piedade de nós mesmos podemos constatar que em algumas circuntâncias de nossa história pessoal, familiar, coletiva e, mesmo universal fomos derrotados. Por que? É a pergunta que fazemos, muitas vezes tentando achar um culpado pelas nossas derrotas.
O que muitas vezes nos torna derrotados no curso dessa vida é o esquecimento de que fomos vencedores quando ainda éramos duas células metades na luta inaugural do ser. Na sociedade em que vivemos tudo contribui para que isso aconteça. Enquanto no universo uma força positiva conspira para que sejamos vitoriosos no processo evolutivo; no cotidiano da vida, outra força negativa, dentro de nós, trabalha para que sejamos derrotados. E, na maioria das vezes, nos submetemos aos mandos dessa força derrotista. Isso porque esquecemos o que somos.
A vida humana não é fruto do acaso. Um acontecimento aleatório do universo. A fecundação que deu origem à primeira célula do nosso ser não foi um acidente de percurso na trajetória de um óvulo e um espermatozóide que no caminho oposto que faziam se trombaram e se fundiram. A junção desses dois gametas foi um encontro que se deu depois de uma luta travada por ambos que, impulsionados pelo desejo da vida, empreenderam a corrida para o milagre da fecundação. Todo óvulo e todo espermatozóide são virtualmente destinados a um encontro, porém nem todos se encontram para o milagre da vida.
A fecundação que lhe deu origem foi um milagre que só aconteceu porque aqueles dois gametas, além do desejo vital, foram orientados pela Sabedoria do Espírito Criador e, em obediência a essa orientação, lutaram para chegar ao encontro um do outro e dar início à vida. Milagres não acontecem do nada. Há que se buscá-los nas possibilidades do universo.
Na corrida para a fecundação, os muitos obstáculos encontrados por um dos gametas não foram suficientes para demovê-lo da aventura empreendida. Ao contrário, cada desafio encontrado e superado o transformou em um gameta mais obstinado pela concretização da vida que virtualmente carregava.
Foram milhões de espermatozóides naquela corrida frenética em busca do óvulo. Alguns deles tomaram o rumo errado, outros tantos desistiram da luta, outros ainda ficaram para trás e chegaram atrasados. Somente um chegou primeiro porque lutou com obstinação. Correu mais que os outros. Venceu cada obstáculo do caminho e encontrou o óvulo no momento propício e o fecundou. Nada disso foi fruto do acaso ou um acontecimento qualquer, mas o resultado da luta inaugural pela vida. O primeiro milagre da nossa existência, enquanto exemplar da espécie.
O universo, cúmplice de todos os fenômenos que acontecem na sua viagem rumo ao futuro, conspirou e torceu para que naquele tempo de sua aventura expansionista um óvulo e um espermatozóide se encontrassem para mais um acontecimento fenomenal da natureza.
A célula inaugural, resultado da junção daqueles dois gametas, é a síntese da experiência vitoriosa e da alegria de um espermatozóide vencedor que se encontrou com um ovócito receptivo e ambos se fundiram para a aventura da existência. Essa história, de luta e vencedor está gravado na memória de cada célula que temos no corpo, pois cada uma traz consigo a herança genética da célula primeira.
No processo embrionário inicial, milhões de outras células se produziram e, todas, reproduziram o patrimônio genético da célula-mãe. E, assim, fora todo o tempo da gestação. Portanto, ao vir ao mundo, viemos com bilhões de possibilidades potencializadas num projeto aberto às realizações de uma vida desejada e planejada para ser vitoriosa.
Carregamos em cada célula do nosso corpo a herança da experiência vitoriosa da luta inaugural do ser, a potencialidade da vida se processando em cada momento da existência. Somos, cada um na sua individualidade, bilhões de células prenhas do desejo da vida desejada pelo Espírito Criador, quando nos lançou nesta aventura humana.
Somos um todo organizado, numa complexidade de bilhões de partículas, todas carregadas da Sabedoria e potencialidade que orientaram o universo nesses bilhões de anos de evolução; somos a síntese de tudo que aconteceu nessa aventura cósmica. Somos, na nossa individualidade, a multiplicidade do desejo daquele gameta que, impregnado pela vontade de existir, se empenhou, na primeira corrida pela vida, para chegar num óvulo receptivo, a outra parte do ser no processo de gênese da vida.
Somos, particularmente, uma fagulha da energia criadora deste universo eternamente em processo evolução e cúmplice de todos os acontecimentos que o constitui.
Somos virtualmente a alegria do vencedor que se encontrou como sua outra metade no ato da fecundação. Temos milhões e milhões de motivos para festejar o milagre da vida e, no entanto, vivemos, em cada momento vivido, a morte que se processa dentro de nós.
Temos que resgatar a ideia originária de que somos aventureiros nessa espaçonave chamada Terra e rumamos para o futuro. Somos sonhos de ser aqui e na eternidade o que estamos destinados a ser. Nada, nem ninguém, hão de nos desviar do nosso destino se assim o quisermos.
As derrotas que ocorreram e que, eventualmente, possam ocorrer no curso dessa passagem existencial são oportunidades que a natureza nos oferece para serem superadas, desafios para ser enfrentados, situações para testar se os desejos do vencedor estão acima dos incidentes de percurso que as forças contrárias nos impõem para nos derrotar no curso dessa epopéia humana de se autoconstruir.
O universo, que tem registrado o primeiro e os sucessivos milagres que nos produziu, continua sendo cúmplice para que o sonho da vida se realize conforme está escrito na consciência universal. Assim, continua conspirando e torcendo para que a vida seja vitoriosa em cada acontecimento do nosso existir, como foi na aventura ultra-uterina.
Fomos vencedores mesmo antes que a vida se iniciasse. Superamos cada obstáculo naquela corrida que antecedeu a fecundação; vencemos quando, ainda, éramos células incompletas. Depois da fecundação vencemos todas as etapas do processo biológico, a multiplicação das células que ocorreu no ventre materno.
Cada etapa desse processo foi uma vitória em favor da vida que hoje se faz presente em cada corpo humano que habita este planeta. Cada célula nova que surgia, naquele processo multiplicador, multiplicava o desejo de vencer, a vontade de lutar em prol da vida em formação. Em cada ato empreendido e a cada objetivo alcançado estava o júbilo do vencedor. Tudo isso está gravado nas entranhas de cada um de nós e na memória da Fonte Originária da Vida. O ser humano é a síntese da vitória do universo orientado pela Sabedoria do Espírito Criador. Ele não pode ser um acontecimento repleto de fracassos.
 Por isso não temos motivos para sermos tristes, infelizes, doentes, pobres e derrotados. A tristeza, a infelicidade, a doença, a pobreza e a derrota não são coisas da vida, pois esta é  fruto do amor, da generosidade, do desejo de ser emanado da Fonte Alimentadora de Todo o Ser e da cooperação de vários elementos.
A vida é a manifestação dessa força maior, que costumamos chamar de Deus. Não esse Deus que se parece derrotado pelas atitudes de suas criaturas, mas o Deus vitorioso cujo Espírito de Sabedoria habita o universo, corações e mentes daqueles que com Ele reestabelecem uma ralação de amorosidade. Esse amor se resume em felicidade, jovialidade, saúde, prosperidade e outros atributos das virtudes universais.
Se não estamos vivendo essa condição é porque o milagre que nos produziu encerrou-se com nosso nascimento. Se não vivemos a vocação de ser eternamente empreendedores da vida e vitoriosos é porque desde o momento que viemos à luz, até aqui, estamos sendo vítima de um processo de anulação e, covardemente, estamos cedendo e sufocando nossas potencialidades.
Não estamos vivendo nossa lenda pessoal, o destino de cada um. Não estamos potencializando o desejo de vencer que está impregnado em cada criatura ou elementos da natureza e, igualmente, em nossas células. Esquecemos que a vida foi e será vencedora e que há a eterna cumplicidade no universo para que assim seja. Isso faz parte da aventura evolucionista. Não somos estranhos a este processo. Somos partes dele porque pertencemos ao universo.
Não viemos para este mundo para viver uma experiência de derrota. Não fomos feitos para fracassar. Cada queda que a vida nos impôs foram oportunidade para levantarmos e seguir adiante, mais experiente. Agora, se formos derrotados nessa aventura existencial, ninguém pode ser culpado pelos nossos fracassos, senão nós mesmos.
Se o fracasso está acontecendo é porque rendemos nossa vontade de potência aos hábitos e costumes medíocres daqueles que não acreditam no viver como um horizonte de possibilidades. Seguimos a lição daqueles para quem a fatalidade do destino e as forças ocultas e negativas têm a última palavra sobre nós. E o resultado disso que estamos vendo em cada esquina, em cada rosto da multidão, é a incapacidade em atingir os objetivos da vida, de buscar a concretização do sonho do universo.
Neste início de ano novo pense nisso! Reflita sobre essa condição que, sinteticamente, nós descrevemos acima. Você é importante na trama do universo. Por isso, isso não foi feito para ser um derrotado, um vencido pelas vicissitudes desse tempo que tens, entre o nascer  e o morrer. Pense nisso! Feliz Ano Novo. Que o sonho da vida seje resgatado por você em cada dia de sua aventura neste que ora se inicia,
ANTONIO SALUSTIANO FILHO, Advogado, ambientalista e escritor.  

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

É PRECISO GESTAR JESUS CRISTO PARA QUE ELE RENASÇA EM NOSSOS CORAÇÕES


Dizem que Natal é tempo de resgatar o nascimento de Jesus Cristo em nossas vidas. E resgatar o nascimento de Cristo significa trazer de volta a mesma atmosfera daquele Natal e com todo o simbolismo aí verificado. Renascer significa nascer de novo.
Jesus quer continuar nascendo em nossos corações, em nossas mentes. E para que isso aconteça é preciso que Ele seja gestado em nosso ser. Como fizera Maria que no tempo do advento – da anunciação do Anjo até o nascimento do Menino – gestou-O em suas entranhas. E aqui está a grande dificuldade para o mundo atual, o grande empecilho para o renascimento de Jesus Cristo é que não conseguimos gestá-Lo em nossas entranhas, pois nossas práticas estão longe de ser atitudes gestadoras do verdadeiro amor que Ele quis revelar.
Gestar Jesus Cristo não é praticar essa religiosidade piegas que consiste e participar dos cultos dominicais e, às vezes, servir às pastorais de altar, praticando uma caridade materialista, como muitas vezes fazemos e nos inflamos de orgulho, iludidos de que estamos servindo à uma grande causa.
Gestar Jesus em nossas vidas significa imitar Maria que, ao tempo que gestava o Filho de Deus em suas entranhas, saiu do seu mundo, da sua realidade e foi servir a velha Isabel – figura que na Bíblia representa o mais fraco que precisa de ajuda. Com esse gesto Maria demonstrou ter consciência de seu papel na história do povo abandonado a sua sorte pelos Herodes e Romanos do mundo, mas amado pelo Deus da Vida.
Maria, ao tempo que serve, demonstra o porquê de sua escolha para fazer humano o Deus que quisera fazer-se Homem. No Magnificat, diz Ela que o seu Deus – aquele que fez maravilhas e será revelado ao mundo na pessoa do fruto bendito que sairá de suas entranhas – é o mesmo Deus que olha para a humildade de seus servos, Nela representados.
Que o Deus Nela gestado é o mesmo que fez e faz grandes coisas em favor dos simples e humildes do povo ao longo da história; é o Deus Santo, cuja misericórdia se estende às gerações; é o Deus que mostra o poder de seu braço e dispersa os orgulhosos, desfazendo seus planos; é o Deus que derruba de seus tronos os poderosos e eleva os pequenos; é o Deus que enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazia; enfim, é o Deus que lembra seus servos – aqueles que servem e libertam os mais fracos como fizera Maria – porque assim é sua promessa desde os tempos de seus antepassados.
E a promessa é o Menino que, na fragilidade de uma criança mostrará a grandeza de Deus. E bem-aventurada é aquela que o gestou. E o gestou primeiro em sua consciência de mulher solidária no meio de sua gente sofrida, serva servidora e portadora da esperança, às vezes já perdida pelo seu povo.
Natal é isso. O Deus, Eterno e Todo Poderoso, não quis ficar eternamente Deus. Quis ser um de nós. O Verbo se fez Carne e habitou entre nós. Assumiu nossas quedas, sofrimentos, lutas, vitórias e alegrias. Já não estamos a sós nessa história. Mais uma vez Deus ouviu nosso clamor. Ouviu e veio armar sua tenda no meio de nós! Veio se indignar conosco contra todos os males engendrados pelos poderosos deste mundo. Veio manifestar seu amor por nós na vida de um menino, sinal de contradição, como disee depois o velho Zacarias. Veio nos dizer que está conosco e por isso não temos o que temer na luta.
Natal não é encher-se de presentes nesse materialismo exacerbado da sociedade de consumo. Não é só comer e beber feito porcos espirituais, numa festa destituída da atmosfera do verdadeiro Natal. A natividade do presépio, onde vemos Maria, o bom José que, é o nascimento de um Deus que fez Homem na fragilidade daquele Menino.
E por fim, lembramos de que a cidade de Belém tomada por gente de todos os lados disse não ao Deus que ali quisera nascer. Portanto, nasceu na periferia, no estábulo, perto dos animais, longe dos palácios (hoje mansões), fora do Templo (hoje Igrejas que se abarrotam de alienados que cultuam um Deus que não existe biblicamente), longe das hospedarias (hoje nossos corações ocupados com as coisas deste mundo).
O Deus revelado no mistério da encarnação é o Deus conosco, Emanuel! Aquele que veio para o que era seu, mas foi rejeitado e se revelou aos Magos (Sábios de outras terras, de outras religiões), numa amostra que o verdadeiro Deus rejeita as coisas oficiais, inclusive as religiões; um Deus que se faz anunciar aos pastores, os economicamente desprezados, os profissionalmente inferiores. Pense nisso antes de arrotar-se feito um porco guloso e rezar/orar como um crente alienado!
ANTONIO SALUSTIANO FILHO, advogado.

É NATAL


                                                                            
Estamos nas proximidades de mais um Natal. A fé que aprendemos a cultivar e a cultuar nos ensina que neste tempo temos que refletir sobre as razões dessa nossa crença na Natividade. Passeando, imaginariamente, pela História da humanidade passei por Belém de Judá. Ouvi o choro de uma criança e uma voz feminina cantando uma canção de acalento. Curioso, fui ver do que se tratava. Era o menino Jesus que chorava deitado em um berço de palha numa manjedoura, rodeado de animais o boi, o asno, as ovelhas e era acalentado por uma cantiga de ninar entoada pela voz suave da Virgem Maria, sob o olhar cuidadoso do bom José.
Enquanto eu observava a singeleza daquela cena, eis que chegaram uns Pastores, alegres e apavorados pela curiosidade em ver o Menino. Disseram aqueles homens toscos que lhes fora dado uma alvissareira notícia: o nascimento do Salvador, aquela criança.
Depois de satisfeita a curiosidade, olhando com reverência o Menino, os pastores abriram seus odres e, partilhando entre si, beberam o que restava do vinho, brindando aquele acontecimento. Cantaram uma cantiga que costumavam cantar na calada da noite de pastoreio para afugentar o lobo voraz e o medo inibidor. Só que em lugar das palavras mágicas que dissipava o inimigo, frases de alegria e contentamento: “Glória a Deus nas alturas e Paz na Terra aos homens por Ele amado”.
Um instante de silencio e, de repente, um deles, iluminado pela luz do Anjo que lhes havia anunciado o nascimento do Messias, tomou a palavras e disse: “aqueles que habitavam a terra do medo, que viviam o tempo da espera e alimentavam a esperança nas promessas de um novo tempo estão vendo a luz que anuncia o fim da escuridão. A aurora desse tempo surge na imensidão do horizonte de nossas noites escuras. Deus não se contentou em ser somente Deus, se fez Homem e habitou entre nós. Bem aventurado é o ser humano que não será mais somente humano, pois o divino se faz presente nele com a chegada deste Menino”.
Fez uma pequena pausa e continuou: “Na fragilidade desta Criança se esconde a grandeza de nosso Deus, pois nela subsistem duas naturezas: a humana e a divina. O Criador se fez criatura, se deu como presente a uma humanidade cansada e desiludida da existência. Deus que criara o homem à sua imagem e semelhança para um dia, quando se completasse o tempo, ser igual ao ser criado, agora se faz homem também. O ser humano não é um ser qualquer, mas o receptáculo de Deus. Nesta criança, cuja humanidade não é diferente da nossa, hospeda-se Deus”.
Ainda, falava aquele e outro dos pastores, tomado pelo Espírito daquele momento, se dirigindo à Maria, discursou: “Bendita sois Tu, ó Mulher, que representando a espécie humana, foste escolhida para em teu ventre gerar o Altíssimo. Tu disseste o sim que todos nós devíamos dizer ao projeto de Deus de fazer-se Homem e habitar entre homens. Mas o Poderoso só achou guarida em Ti”.
Um terceiro tomou a palavra e com a mesma inspiração cantou: “O Deus todo poderoso, cantado por inúmeras gerações, Aquele que fez maravilhas, criando o céu e a terra com todas as suas criaturas, se abaixa e se faz mundo, assumindo nossa humanidade caída para elevá-la à condição original. O homem, ao longo dos tempos, maculou a imagem divina nele impregnada no ato da criação, porém, Deus, neste Menino, resgata essa imagem. Este é o motivo da nossa alegria”.
Um quarto pastor que a todos ouvia e meditava no silêncio de sua atenção se pusera a falar como quem resgatava uma profecia proferida em tempos de sofrimento: “A misericórdia do nosso Deus desceu sobre nós e nos norteará em nossos dias até o fim dos tempos. Foi nos dado um Salvador cujo reino será um lugar e um tempo de paz e harmonia. Não haverá mais a disputa entre o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, o leãozinho e o bezerro, a vaca e o urso com o império do mais forte. Todos serão conduzidos pelo Espírito de um menino, pois foi assim que o Todo-Poderoso se manifestou para nós nesta noite. Deus se fez Homem demonstrou seu poder na fragilidade desta criança”.
Por fim, falou outro pastor, assim se pronunciando: “Dominado pelo Espírito desta criança os homens cessarão as injustiças de uns sobre os outros. Ninguém assentará cercas sobre as terras, privando muitos dela tirar seu sustento; nenhum terá pão em demasia com o pão que falta na mesa de muitos – a fome não será mais o motivo da morte de tantos; ninguém construirá palácios e nele habitará, enquanto milhões estarão relegados ao relento dos casebres e, finalmente, ninguém há de festejar enquanto a tristeza não for banida dos corações de todos os filhos e filhas de Deus. A Gloria de Deus ora anunciada será completa se homens por Ele amado banir da convivência humana os motivos que impedem a paz”.
Maria e o bom José ouviam calados as manifestações de alegria e contentamento saídas dos lábios daquela gente simples e humilde. Aquela gente nem parecia com os habitantes da cidade de Belém que lhes negaram hospedagem. 
Ouvindo e vendo – imaginariamente – tudo que ali se passara entendi que o Natal não é tempo de uma festa qualquer; mas, um tempo de celebrar a manifestação “da bondade e do amor de Deus, nosso Salvador” (Tt 3, 4). O Natal encera a sacralidade inviolável da vida. Na vida daquele Menino podemos sentir a pulsação da Vida dentro de um contexto de plenitude.
Deus não se fez homem somente para que nas épocas natalinas, nós, imbuídos da atmosfera profanizada do Natal, possamos, num gesto miserável – por que destituído da profundidade sacrossanto do nascimento de Jesus –, festejar à moda da sociedade consumista, onde a figura ridícula de papai Noel ocupa a centralidade de nossas vidas, ofuscando o Mistério da Encarnação.
O Natal é mais do que a simbologia dessacralizada e manipulada pela sociedade de consumo que apela para bolso daquele que pode gastar. Ao invés de pedir presentes para Noel, deveríamos abrir nossos corações para Deus se fazer presente em nossas vidas. Ou seja, abrir nossos corações para que Deus, na fragilidade de um menino, possa nascer e aí se hospedar para sempre. Porque como disse Angelus Silesius, místico e poeta de antão, “Nasça Cristo Mil vezes em Belém e não nasça em teu coração: estás perdido para o além, nasceste em vão”. ANTONIO SALUSTIANO FILHO, advogado

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

PARA REFLETIR TODOS OS DIAS DE 2011


O meu corpo: físico, emocional, mental e espiritual, uma partícula do Espírito da Natureza Criadora, capta a energia benfazeja presente no universo. Essa energia cósmica que se condensa e penetra na centralidade do meu eu, se espalha por todo o meu ser e desperta as possibilidades adormecidas na memória de cada célula do meu corpo; essa energia queima as toxinas e impurezas em mim produzidas pela inércia da existência e restabelece o fluxo energético do meu organismo, revigora a juventude do meu corpo e a alegria d’alma.
Sou purificado (a) e protegido (a) de todas as energias negativas. Curado (a) de todos os males do corpo e da alma. Sou movido pela esperança e alimentado pelo desejo do vencedor que me habita. Meu corpo rejuvenescido irradia a beleza e os encantos da minha alma. E assim, sinto que cada vez mais vão que se evaporando minhas angústias, meus rancores, meus medos, ódios e bloqueios.
Sou resgatado da situação de fracasso a que fui submetido pela obediência cega às forças negativas com as quais convivi. Cada momento que vivo estou melhor, mais saudável, mais jovem, mais bonito (a), mais sábio e mais inteligente (...), sou feliz, pois estou vivendo a vocação original do ser, as peripécias de um espírito aventureiro em busca da plenitude da vida.
Sou amado pelo Espírito da Natureza Criadora que habita o cosmos e irradio esse amor amando cada vez mais a mim mesmo, a minha família, os meus amigos e todos os seres do universo, pois, somos obras da Grande Mãe Natureza, feitos da mesma matéria que compõe o universo. Formamos uma unidade nessa teia da vida. Somos resultados da vontade, do amor e da sabedoria manifestos em bilhões de anos dessa aventura cósmica.
A Sabedoria que orientou o milagre que me produziu está cada vez mais presente na minha mente, no meu coração e em cada partícula do meu ser. Há uma conspiração engendrada pela consciência coletiva do universo tramando para que o amor, a sabedoria, a paciência, o equilíbrio, a compaixão, o perdão, o cuidado, a jovialidade, a esperança, a coragem, a fé, a perseverança, o espírito do bom combate, a vitória, o sucesso, a prosperidade, a riqueza, a felicidade, a saúde, a paz, a humildade, a prudência e a alegria – essas coisas da Sabedoria do Espírito da Natureza Criadora e da essência de cada ser humano – sejam qualidades, atitudes e resultados presentes no meu viver no dia de hoje.
Não importa quantas quedas já tombei, nem as dificuldades do caminho, doravante a minha vontade, decisão e empenho para vencer são suficientemente fortes e orientadores dos meus atos. Cada gesto meu, em qualquer empreendimento cotidiano, por mais simples que seja, carrega em si o propósito da vida porque são gestos inspirados e impulsionados pelos os mesmos propósitos da aventura do universo neste processo de evolução.
Sou como aquela semente que caiu no chão: brotou e se fez planta, cresceu e se tornou uma arvore frondosa e que produz muitos frutos cheios de outras sementes que carregam em si a promessa de outras plantas, de um jardim, de uma floresta.
Sou uma pequena partícula do Espírito da Natureza Criadora dentro deste universo em expansão que segue sua trajetória rumo ao futuro.  Não estou mais preso ao passado. As coisas ruins que ontem me aconteceram lá ficaram para sempre. As pessoas que me feriram foram perdoadas. Os acontecimentos que provocaram emoções negativas e me machucaram já não fazem parte da minha mente consciente e subconsciente. Os sentimentos destrutivos que alimentei foram transformados pela força dessa energia vital que habita todas as partículas do meu ser. Sou comandado por essa força regenerativa, portanto, não sou mais o reflexo das coisas negativas que um dia experimentei.
Não lamento mais o passado, nem temo o futuro. Vivo o presente e confio nos meus valores. Eu sou filho de Deus! Sou um ser consciente, sou o maior milagre da natureza. E como a natureza que não conhece derrota e emerge sempre vitoriosa, dado seu poder regenerativo incomensurável, assim sou eu. Não assimilo as derrotas e nem o fracasso com condição definitiva da existência. Eu sou e serei sempre vitorioso.
Que este pensamento seja um habito em cada dia deste tempo natalício e que se repita em cada amanhecer de cada dia de 2011.  

Para refletir:

Símbolos do feminino e do sagrado 

Ó Lua de prata! Símbolo do feminino e do eterno retorno. Criança, quando Lua Nova; Menina-moça-mulher, na Lua Crescente; Mulher-Mãe, grávida da vida, quando se tornas Lua Cheia; Caminhas para morte na obscuridade da Lua Minguante e leva consigo a potencialidade do devir e retornas no próximo ciclo lunar. Deusa na dinâmica das varias fases desse jeito de ser lunar em forma de astro nas noites em que o Sol nos desampara com seu acaso.

Queremos te cultuar, ó Deusa-Mãe, nesta noite de claridade da tua plenitude. Queremos te venerar ó símbolo do sagrado feminino, aquela que é o receptáculo da vida, a Serpente Sagrada, símbolo da regeneração, Deusa da fertilidade de nossos ancestrais.

Queremos resgatar o feminino suplantado nos acontecimentos históricos da conquista do masculino, mas que está na consciência universal deste universo que se expande e conserva esse arquétipo original que a natureza criara.

Mãe-Terra, Deusa que nos sustenta na aventura desta existência neste solo em que pisamos. Tua fertilidade opera os milagres da natureza, a água que brota do teu seio e corre pelos rios, o ar que respiramos, as plantas e animais que se alimentam e nos alimenta numa simbiose sacrossanta.

A dança da vida neste casamento com o Céu, o Deus que te fecunda sem te diminuir por que é a outra parte de ti. Universo UNO. Céu e Terra na aliança do arco-iris, dois lados do Ser Supremo, duas faces do Todo. Bipolaridade. Masculino e Feminino sem o império do mais forte.   

Quem sou eu? De onde vim? para onde vou?

Eu sou bilhões de células que formam um tecido; vários tecidos que constituem um órgão. Um amontoado de órgãos que formam um organismo, que associados a outros organismos se transformam num nicho ecológico que com vários nichos ecológicos formam um ecossistema.

Pertenço a um ecossistema que faz parte do Planeta Terra que, por sua vez, faz parte do Sistema Solar que com outros sóis formam uma galáxia; pertenço a uma das galáxias que forma o Cosmos, que é uma das expressões do grande Mistério, Deus, o Espírito Criador que paira sobre todas as coisas.

A soma de mim aos demais seres da natureza e elementos do universo resulta no Todo. Eu sou uma pequena partícula que carrega a grandeza do universo que é uma das expressões de Deus. Eu sou o Todo resumido neste ser que agora vive o sonho do infinito, o desejo da eternidade, a manifestação do amor de Deus! Eu Sou!

Neste Natal, quando aquele espírito de confraternização envolve a todos nós, devemos parar um pouco, desligar-se dessa rotina enfadonha deste cotidiano nem sempre propício à nossa aventura existencial, pensar no mistério da vida. Porque estou aqui? Qual é o meu papel na tessitura do Todo.

Feliz Natal e um Ano Novo cheio de sonhos e  fantasias, mas acima de qualquer coisa, que tudo seja realizado!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

AS LIÇÕES DO PRESÉPIO


Resgatando a origem religiosa do Natal podemos perceber que esta data encerra algo mais do que vemos na sociedade atual. Visitando alguns presépios podemos constatar certa originalidade em quase todos eles. O pinheiro, a vela, as estrelas, a bolas coloridas e resplandecentes, os efeitos de luzes multicores, o Menino Jesus, a Virgem Mãe, o bom José, o boi, o asno, ovelhas, camelos, os reis Magos e até papai Noel (Epa! o que ele está fazendo aqui?).
     O Presépio é o grande cenário onde estão presentes os elementos da unidade cósmica: Deus, na pessoa do Menino Jesus; os homens representados por Maria, o bom José, os Pastores – estes representando os marginalizados, a quem Deus visitou de modo especial –; os Magos do Oriente – aqui simbolizando a universalidade das raças –; a estrela, sinalizando o universo presente no acontecimento natalino; o boi, o asno e a palha – elementos que simbolizam a natureza. Portanto, o Natal é a celebração do grande pacto ecológico porque o Deus aí revelado é um Deus que encarna todo o universo e não somente o Homem.
     Paralelo à singeleza e a grandeza desse cenário do presépio havia outra realidade. A Bíblia diz que o povo que vivia na cidade de Belém – na expectativa da vinda do Messias – estava ocupado com seus afazeres cotidianos. A cidade estava tomada por gente de todos os cantos que ali se encontrava por determinação do Imperador de Roma – o governo da terra – para o recenseamento. O Império que queria saber quantas pessoas existia no seu território, não porque estivesse interessado por essa gente, mas porque queria saber se os impostos arrecadados correspondiam ao número de súditos.
     Com o recenseamento, Belém estava cheia. O comércio fervendo. Não havia lugar nas hospedarias para uma mulher grávida e acompanhada do tal José que se dizia da linhagem de Davi e não tinha dinheiro para pagar a hospedagem. Também não havia lugar no coração daquela gente para um gesto de caridade: acolher uma família pobre que precisava de um lugar para que viesse à luz uma criança.
Muita gente, na pacata cidade de Belém de Judá, não percebeu a passagem de José e Maria. E aqueles que os viram – inclusive a procura de uma hospedagem – os ignoraram. Todos estavam ocupados com aquele acontecimento social e aproveitavam a oportunidade para ganhar um pouco mais com suas atividades. Hoje não é muito diferente.
     Pelas ruas e avenidas das cidades vemos luzes e balões coloridos dando um aspecto multicor à ocasião. As cantigas natalinas – muitas das que foram feitas com o verdadeiro espírito do Natal – anunciam o advento de um velho tempo em que a lógica perversa do mercado dita o comportamento daqueles que podem presentear os seus; e que se danem os deserdados e os sem salários, a escória da humanidade que habita o submundo da miséria, os geograficamente confinados nos morros e favelas, às margens da sociedade próspera!
     Nos grandes centros comerciais, principalmente nos shoppings – o grande templo onde se cultuam o deus mercado e namoramos as vitrines alimentando o desejo de ter – as pessoas se acotovelam num frenesi incansável nas compras das futilidades que a sociedade de consumo oferece com sinônimo de felicidade. Papai Noel, protótipo profanizado de uma figura lendária européia, transformou-se no “bom velhinho” que serve para incentivar o comércio, aliciando as crianças e adultos a exigirem presentes e mais presentes. Tudo em nome da lógica do mercado que a cada ano precisa superar o ano que passou vendendo mais.
     Os símbolos do Natal não carregam mais o significado do maior acontecimento da História: a encarnação de Deus. O menino frágil, envolto em panos e deitado sobre as palhas de uma manjedoura, cercado de animais e figuras desprezíveis – como eram os pastores na ocasião, os destinatários de uma alvissareira notícia – não passam de símbolos de uma poesia sentimentalista, capturados pela ideologia mercadológica a serviço da lucratividade comercial. Perdemos o referencial da sacralidade do Natal onde Deus e o homem, o humano e o divino se encontram na pessoa do Menino Jesus. Mergulhamos na profanização da existência, materializamos o Sagrado
     Esquecemos – e muitos nunca o souberam – que Natal é um tempo especial que nos propicia fazer uma reflexão a respeito do grande mistério da vida, a encarnação de Deus. A fé cristã e a doutrina dela oriunda nos ensinam que a encarnação – o Verbo se fez carne e habitou entre nós – significa que Deus se fez homem e o homem foi divinizado. Tudo isso na pessoa frágil do Menino deitado no Presépio. Deus, na pessoa de Jesus de Nazaré, abraçou a humanidade. Ninguém, nem nada ficaram fora da abrangência do Criador quando se fez criatura na noite do Natal.
     Hoje, muito tempo depois do primeiro Natal, é imperioso indagarmos onde estamos. Estamos no Presépio vivenciando tudo aquilo que ele encerra: a encarnação de nosso Deus; ou estamos nas cidades – com estavam em Belém seus moradores ocupados com o recenseamento do Imperador –, todos, perdidos no vai-e-vem dessa gente ocupada com seus compromissos mundanos, indiferentes ao Deus que passa e pede uma hospedagem? 
     Disse Angelus Silesius, místico e poeta de outros tempos: “Nasça Cristo Mil vezes em Belém e não nasça em teu coração: estás perdido para o além, nasceste em vão”.
     ANTONIO SALUSTIANO FILHO, Advogado, ambientalista e escritor.