A natureza biológica do ser humano desenvolveu seu lado material e deixou encantoado num lugar qualquer do ser a natureza espiritual. Esse lado material quer conquistar aquilo que acha que pode ser a compensação do que falta. O desejo de conquistar, nesse ser marcado pela carência, foi exacerbado ao ponto do ser humano, para não se sucumbir de vez, tornar-se um competidor solitário. E na competição individualista para a sobrevivência, a raça humana fracassou, porque deixou de lado sua capacidade de relacionar-se bem. Houve um desvirtuamento do desejo. Permaneceu o animal social competidor em prejuízo do ser social solidário.
Os fundadores da nossa civilização ocidental viu, erroneamente, que o desejo originário do ser humano era uma doença que poderia causar desconforto na vida social, no modelo de sociedade idealizado. Daí impuseram o primado da razão. Mais tarde, eles entenderam que o desejo originário deveria ser domesticado pela razão utilitária, pois, era um pecado a ser combatido a todo custo, já que era uma vontade do demônio manifesta no homem. A razão castradora inventada em determinado estágio da aventura humana, e tida como luz divina, deveria imperar e dominar o desejo ancestral. Desde então, a história da humanidade é o suceder de fatos sob o império e triunfo dessa razão, chamada atualmente de razão cartesiana. O desejo originário deixou de ser a centralidade da criatura humana e passou a ser um elemento periférico da vida de cada um.
A razão inventada passou a predominar a história humana. Tudo o que foi feito e descoberto, o foi sob o égide da racionalidade e a experiência humana passou a ser a história da desumanização das pessoas e animalização do mundo.
Nada do que aí está é fruto exclusivo do desejo originário do ser humano. Aliás, esse desejo muito pouco, ou quase nada, contribuiu no processo civilizatório que nos moldou. Nos tempos modernos, período em que consolidou a racionalidade em todas as dimensões da vida, nós perdemos o referencial de nossa essencialidade enquanto humanos. Movidos pelas razões da sociedade onde tudo é mercadoria, deixamos de lado os sonhos, a criatividade, os desejos de beleza e a curiosidade pelo mistério. Todas as nossas forças foram canalizadas para isso que vemos e chamamos de progresso. O progresso é o triunfo da razão inventada e, talvez, poder ter como resultado a tragédia humana sobre si mesmo e sobre todo o universo.
muito de nós, no desabrochar da juventude, vislumbrávamos a vida como um horizonte de muitas possibilidades. Pois bem, movido por aquele desejo moço próprio da juventude, alimentávamos uma utopia. Naquele tempo e com fulgor da idade havia um misto de ideais e ingenuidade, fé e esperança que no desconhecido, em algum lugar do futuro, poderia se conquistar os objetos dos nossos sonhos e fantasias. Erámos movidos pela utopia. Agora parece que perdemos essa capacidade de criar utopias.
A utopia, com tudo aquilo que lhe próprio, fazia com que enxergássemos a realidade lá no futuro diferente do que ela era no agora de nossa mocidade. Assim sendo, tinhámos motivações para aventurarmos na conquista do idealizado. Acreditámos que nossa história poderia ser escrita diferente da história de tanta gente medíocre que, por indolência, covardia ou alienação, se acomodava na situação posta. A utopia nada mais é do que o desejo verdadeiramente humano projetando no futuro imagens e valores possíveis da concretização do desejo ancestral latente em cada um. Isso era patente em nossos tempos de juventude.
A utopia é o sentimento que alimenta os seres humanos a verem o mundo além do este que é na realidade. São poucos exemplares da raça humana, devido ao estado de alienação, que têm a capacidade de acreditar que a realidade não é algo estático. Multidões acreditam que o que é a realidade, tem perenidade que perpassa o tempo e, por isso, não vislumbram possibilidades de refazer o já feito, de mudar o que está, aparentemente, pronto.
Essa dualidade entre o desejo e a razão inventada, ou emoção e racionalidade, nos remetem a dois deuses da mitologia grega (raiz de nossa cultura ocidental), Apolo e Dionísio. Ambos são portadores de atributos ou forças antagônicas de manutenção e transformação da ordem estabelecida. Nós somos portadores dessa condição dual. Há quem diga que deve haver um equilíbrio ente uma e outra parte dessa dualidade. Eu acredito que deva permanecer a predominância do desejo. Não o desejo desvirtuado pela sociedade do consumo em que tudo é permitido porque tudo é mercadoria, mas o desejo iluminado pelas razões originárias do coração.
Estou falando sobre razão inventada pelo homem, não da justa razão que equilibra o desejo. Aquela que é a medida certa de todas as coisas. Essa razão cordial está no inconsciente humano como um arquétipo perdido em nosso imaginário. Hoje o que impera é razão exacerbada, a razão levada ao extremo para justificar o aniquilamento do desejo.
Quando falo do império do desejo é porque o nosso lado emotivo é a fonte dos mais variados desejos. A razão inventada não deseja nada além daquilo que é sua razão.
O querer construir uma realidade diferente da que temos é um desejo inerente a todo ser humano que manifesto é a força da alma, a essência humana agindo. É o desejo e a justa razão interagindo. Quando não existe essa interação somos dominados, ora pelo lado racional, a razão ocidentalizada, ora pelo emocional desvirtuado: o desejo, igualmente ocidentalizado. E o fim disso é o que estamos vendo, uma multidão de gente que perdeu o foco de si mesmo e desorientou-se do seu rumo.
As pessoas e o mundo podem ser transformados porque a realidade é dinâmica. Nela há sempre uma possibilidade de mutação. A realidade é aberta, é um projeto inconcluso, uma promessa, um processo evoluindo no tempo e no espaço tanto para o bem como para o mal. O homem que acredita nessa possibilidade do tempo como fator de evolução para o bem é um ser alimentado pelo desejo originário, avesso à razão que é conservadora. É um sujeito utópico.
ANTONIO SALUSTIANO FILHO