sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O antropoceno: uma nova era geológica

Por Leonardo Boff

As crises clássicas conhecidas, como por exemplo a de 1929, afetaram profundamente todas as sociedades. A crise atual é mais radical, pois está atacando o nosso modus essendi: as bases da vida e de nossa civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com recursos inesgotáveis. Agora não podemos mais contar com a Terra sã e abundante em recursos. Ela é finita, degradada e com febre não suportando mais um projeto infinito de progresso.

A presente crise desnuda a enganosa compreensão dominante da história, da natureza e da Terra. Ela colocava o ser humano fora e acima da natureza com a excepcionalidade de sua missão, a de dominá-la. Perdemos a noção de todos os povos originários de que pertencemos à natureza. Hoje diríamos, somos  parte do sistema solar, de nossa galáxia que, por sua vez, é parte do universo. Todos surgimos ao longo  de um imenso processo evolucionário. Tudo é alimentado pela energia de fundo e pelas quatro interações que sempre atuam juntas: a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte. A vida e a consciência são emergências desse processo. Nós humanos, representamos a parte consciente e inteligente  da Via-Láctea e da própria Terra, com a missão, não de dominá-la mas  de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos permitem levar avante nossa vida e a civilização.

Ora, estas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e consumista. Já não se trata de salvar nosso bem estar, mas a vida humana e a civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com a natureza dificilmente sairemos da atual situação. Ou substituímos estas premissas equivocadas por melhores ou corremos o risco de nos autodestruir.A consciência do risco não é  ainda coletiva.

Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que nos perturba: junto com grande harmonia, coexiste também extrema violência A Terra mesma no seu percurso de 4,5 bilhões de anos, passou por várias devastações. Em algumas delas perdeu quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com renovado vigor.

A última grande dizimação, um verdadeiro Armagedon ambiental, ocorreu há 67 milhões de anos, quando no Caribe, próximo a Yucatán  no México, caiu um meteoro de quase 10 km de extensão. Produziu um tsunami com ondas do tamanho de altos edifícios. Ocasionou um tremor que afetou todo o planeta, ativando a maioria dos vulcões.  Uma imensa nuvem de poeira e de gases foi ejetada ao céu, alterando, por dezenas de anos, todo o clima da Terra. Os dinossauros que por mais de cem milhões de anos reinavam, soberanos, por sobre toda a Terra, desapareceram totalmente. Chegava ao fim  a Era Mesozóica, dos répteis e começava a Era Cenozóica, dos mamíferos. Como que se vingando, a Terra produziu uma floração de vida como nunca antes. Nossos ancestrais primatas surgiram por esta época. Somos do gênero dos mamíferos.

Mas eis que nos últimos trezentos anos o homo sapiens/demens  montou uma investida poderosíssima sobre  todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de consumo. A conseqüência equivale a uma dizimação como outrora. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica” destruidora. A taxa de extinção de espécies produzidas pela atividade humana é cinquenta vezes maior do que aquela anterior à intervenção humana. Com a atual aceleração, dentro de pouco – continua Wilson – podemos alcançar a cifra  de mil até dez mil vezes mais espécies exterminadas pelo voraz processo consumista. O caos climático atual é um dos efeitos.

O prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela irracionalidade do ser humano(em grego ántropos). Assim termina tristemente a aventura de 66 milhões de anos de história da Era Cenozóica. Começa o tempo da obscuridade.

Para onde nos conduz o antropoceno? Cabe refletir seriamente.
Leonardo Boff é autor de Cuidar da Terra-Proteger a vida. Record 2010.

O antropoceno: uma nova era geológica

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

AMOR E ADULTÉRIO.


Carrego comigo uma grande dúvida: se fora ou não traído pela minha ex-esposa. Evidentemente que já superei a dor que senti quando desconfiei que ela me traíra com um amigo e nos separamos. Até hoje não tive coragem de perguntar-lhe se houve ou não essa traição. Mas não é sobre isso que quero filosofar e sim sobre a dor que esse acontecimento pode causar na vida de um ser humano.
A dor da traição dói demais porque é a dor de perda e da revolta. A dor que nos mata porque traídos matamos em nós a pessoa amada. É uma dor diferente da que sentimos quando perdemos um ente querido que se fora levado pela morte. 
Perder a pessoa amada para a morte, apesar de não acostumar-mos com a ideia de que morrer pertence ao processo natural da vida, é triste, porém, consolador porque mais tarde aceitamos a perda. Agora, perder quem amamos espiritual e eroticamente para outra pessoa, num ato de adultério, é algo desolador porque, além da perda e do ódio que isso causa, há o sentimento da incompetência sexual. E não há nada mais aviltante num macho que saber-se insuficiente sexualmente para a fêmea.
Perder para a morte nos deixa triste, porém, é a tristeza da saudade. Perder um amor por traição é diferente, pois o ódio daí advindo nos leva ao desejo de vingança. Isso acaba com qualquer ser humano, pois destrói a fantasia que se criara em torno da pessoa amada. O processo de matar uma pessoa dentro da gente é muito doloroso e pode estragar a vida pelo resto do nosso viver.
De fato, a perda da pessoa amada por adultério nos faz lembrar dela negativamente. O que nela era bom passou a ser ruim, porque o que fora verdadeiro até aquele momento, seu amor , agora era falso, simulacros.
Disseram os especialistas da alma humana que o amor é um sentimento misterioso da psique porque ele é a reconstrução de um elo perdido na aurora da vida.
Já filosofaram, e fazemos ecos a esse pensamento, que essa coisa dos amantes de que “um nasceu para o outro” é uma tentativa do ser humano resgatar, na relação amorosa, a cumplicidade que há entre a mãe e o filho. Na relação mãe e filho, de fato, um nasceu para outro, pois, toda mulher querendo ser mãe o é, pois o nascimento do filho faz nascer nela a maternidade, ou seja, mãe e filho nascem juntos, um para o outro.
No decorrer da vida perdemos essa cumplicidade de mãe e filho porque é próprio da vida esse corte do cordão umbilical, mas isso permanece no inconsciente de cada um de nós e, no encontro com a pessoa amada, procuramos resgatar essa relação perdida. É uma espécie de recompensa. Aliás, nosso viver é uma eterna busca de recompensas. Sempre estamos buscando um consolo para algo perdido.
Quando um homem e uma mulher se amam, um é para o outro aquilo que acontece na relação materno-filial. Ambos nascem um para o outro simultaneamente. Somos, ao mesmo tempo, mãe e filho.
Quando encontramos a pessoa amada vivemos a experiência do eu “nasci no dia que te conheci” ou “nasci para você”. Esse encontro é para suprir a necessidade um do outro advinda do elo materno perdido na aventura do viver desgarrado do amor maternal.
Quando descobrimos a traição da pessoa amada, essa segurança se vai como uma onda avassaladora que vem do alto-mar e para lá volta deixando um estrago irreparável como os tsunamis da natureza revolta.
Desgarrar-se da mãe é um processo lento e sem maiores traumas, porque há uma cultura desse apartar-se durante certo tempo de nossa existência, agora, desgarrar-se de um amor tido como verdadeiro quando se revive esse sentimento de resgate do “eu nasci para você”, e de forma violenta como é no adultério, é uma experiência terrivelmente destruidora.
Já foi dito e escrito, em prosa e versos e cantado, clássica e popularmente, que quando amamos endeusamos a pessoa amada. Esse processo de endeusamento é movido por uma força inconsciente que nos move na direção do outro para elevar-lhe à condição de semideus ou Deus mesmo. A mãe, Deusa por excelência, é o símbolo inconsciente do amor e do mito ideal de beleza que subjaz nosso imaginário, tramando o endeusamento da pessoa amada, segundo os arquétipos do amor e do belo que permanecem escondidos e atuando em nossas construções amorosas.
De fato eu vivera isso no meu relacionamento com a mulher que amei.
Eu havia transfigurado o objeto do meu amor, aquela mulher. O resto da humanidade, e mesmo a vontade do Espírito Criador, quando me lançara nesta aventura humana, não contavam mais. Ela era única razão da minha existência. Imagine tudo isso caído por terra por conta de uma traição!
Passamos a parte da vida buscando o amor idealizado inconscientemente pela figura ideal e transfigurada da mãe; quando encontramos esse amor vive-se outra parte do tempo cristalizando a pessoa amada segundo o arquétipo do amor subjacente no universo subconsciente e, assim construímos um ídolo para adorar e um castelo de sonhos para viver em tempos de adoração.
Eu, assim como qualquer um que se aventura nessa experiência amorosa, tornei-me um sujeito cativado pelo amor idealizado com todos os atributos da suprema perfeição, do mais alto valor do belo; estava certo de que todas as suas inseguranças estavam dissipadas pela fantasia de um relacionamento pleno de amor e fidelidade. A outra parte era igualmente eu mesmo na construção do me castelo de amor. Como dissera o Sábio da Antiguidade que um homem apaixonado fica cego e coloca sobre a mulher amada todos os atributos de todas as mulheres do mundo. Assim eu fizera. Porém, quando tudo isso veio por “água abaixo” da maneira como aconteceu, eu me transformei num trapo humano!
O casamento, dentro de uma relação de amor, é um porto seguro. Quem está navegando em alto mar sabe que existe esse ancoradouro. Tem-se a certeza de voltar para . Porém, se uma hora para outra o mar em fúria vem sobre si e desaba a mais terrível das tempestades, destruindo, impiedosamente, as esperanças de voltar à terra firme onde os sonhos, desejos e fantasias de amor ficaram, isso é algo desalentador. Mas não precisa ser o fim.
No inicio de uma separação nessas condições – e quase todas as separações entre casais se dão a partir de um relacionamento fora do casamento – a gente não consegue amar ninguém. Eu, por exemplo, tentei me aproximar de outras mulheres, mas em nenhuma delas encontrei aquilo que tive com àquela a quem devotei meu castelo de sonhos e fantasias. Até a tesão, que é coisa do animal, eu não tinha mais pelas mulheres. Fiquei impotente, também sexualmente.
Isso só acabou quando a vida me trouxe outros amores. Aí aprendi que busca da pessoa amada não se esgota num único amor. É a lei do eterno retorno.

OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA CARTA DA TERRA

O discurso ecológico com perspectiva de mudança de paradigma e construção de uma nova visão cosmológica, tendo em vista a salvação do planeta Terra e da humanidade – ambos ameaçados pela ação predatória do próprio homem – deverá ser aquele sedimentado nos princípios fundamentais da Carta da Terra. Esses princípios são quatro: (1) respeitar e cuidar da comunidade de vida; (2) integridade ecológica; (3) justiça social e econômica; (1) democracia, não violência e paz.
O primeiro principio “respeitar e cuidar da comunidade de vida” significa que, para sua concretização, temos que “respeitar a Terra e a vida com toda sua diversidade, cuidar da comunidade de vida com compreensão e amor, construir sociedades democráticas, justas, sustentáveis, participatórias e assegurar a riqueza e a beleza da Terra para as gerações presentes e futuras”.
O segundo princípio “integridade ecológica” está apoiado nas seguintes proposições: “proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida; prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, tomar o caminho da prudência; adotar padrões de consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário; aprofundar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e ampla aplicação do conhecimento adquirido”.
Já terceiro principio “justiça social e econômica” sintetiza as seguintes propostas de apoio: “erradicar a pobreza, um imperativo ético, social, econômico e ambiental; garantir que as atividades econômicas e instituições, em todos os níveis, promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável; afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o casso universal à educação, ao cuidado da saúde e às oportunidades econômicas; apoiar sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, dando especial atenção aos povos indígenas”.
Por fim, o quanto princípio “democracia, não-violência e paz”, congrega as seguintes proposições: “reforçar as instituições democráticas em todos os níveis e garantir-lhes transparência e credibilidade no exercício do governo, participação inclusiva na tomada das decisões e acesso à justiça; integrar na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida os conhecimentos, valores e habilidades necessários para um modo de vida sustentável; tratar todos os seres vivos com respeito e consideração”. 
Finalmente, a Carta da Terra – como próprio nome já diz – tem como centralidade, na construção da nova ética mundial, a Terra. Os demais seres vivos, inclusive o homem, serão tidos como filhos e filhas da Terra. Um filho não pode matar sua mãe. Cabe ao homem, filho inteligente da Terra, cuidar para que isso não aconteça.
ANTONIO SALUSTIANO FILHO, Advogado.