quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

AMOR E ADULTÉRIO.


Carrego comigo uma grande dúvida: se fora ou não traído pela minha ex-esposa. Evidentemente que já superei a dor que senti quando desconfiei que ela me traíra com um amigo e nos separamos. Até hoje não tive coragem de perguntar-lhe se houve ou não essa traição. Mas não é sobre isso que quero filosofar e sim sobre a dor que esse acontecimento pode causar na vida de um ser humano.
A dor da traição dói demais porque é a dor de perda e da revolta. A dor que nos mata porque traídos matamos em nós a pessoa amada. É uma dor diferente da que sentimos quando perdemos um ente querido que se fora levado pela morte. 
Perder a pessoa amada para a morte, apesar de não acostumar-mos com a ideia de que morrer pertence ao processo natural da vida, é triste, porém, consolador porque mais tarde aceitamos a perda. Agora, perder quem amamos espiritual e eroticamente para outra pessoa, num ato de adultério, é algo desolador porque, além da perda e do ódio que isso causa, há o sentimento da incompetência sexual. E não há nada mais aviltante num macho que saber-se insuficiente sexualmente para a fêmea.
Perder para a morte nos deixa triste, porém, é a tristeza da saudade. Perder um amor por traição é diferente, pois o ódio daí advindo nos leva ao desejo de vingança. Isso acaba com qualquer ser humano, pois destrói a fantasia que se criara em torno da pessoa amada. O processo de matar uma pessoa dentro da gente é muito doloroso e pode estragar a vida pelo resto do nosso viver.
De fato, a perda da pessoa amada por adultério nos faz lembrar dela negativamente. O que nela era bom passou a ser ruim, porque o que fora verdadeiro até aquele momento, seu amor , agora era falso, simulacros.
Disseram os especialistas da alma humana que o amor é um sentimento misterioso da psique porque ele é a reconstrução de um elo perdido na aurora da vida.
Já filosofaram, e fazemos ecos a esse pensamento, que essa coisa dos amantes de que “um nasceu para o outro” é uma tentativa do ser humano resgatar, na relação amorosa, a cumplicidade que há entre a mãe e o filho. Na relação mãe e filho, de fato, um nasceu para outro, pois, toda mulher querendo ser mãe o é, pois o nascimento do filho faz nascer nela a maternidade, ou seja, mãe e filho nascem juntos, um para o outro.
No decorrer da vida perdemos essa cumplicidade de mãe e filho porque é próprio da vida esse corte do cordão umbilical, mas isso permanece no inconsciente de cada um de nós e, no encontro com a pessoa amada, procuramos resgatar essa relação perdida. É uma espécie de recompensa. Aliás, nosso viver é uma eterna busca de recompensas. Sempre estamos buscando um consolo para algo perdido.
Quando um homem e uma mulher se amam, um é para o outro aquilo que acontece na relação materno-filial. Ambos nascem um para o outro simultaneamente. Somos, ao mesmo tempo, mãe e filho.
Quando encontramos a pessoa amada vivemos a experiência do eu “nasci no dia que te conheci” ou “nasci para você”. Esse encontro é para suprir a necessidade um do outro advinda do elo materno perdido na aventura do viver desgarrado do amor maternal.
Quando descobrimos a traição da pessoa amada, essa segurança se vai como uma onda avassaladora que vem do alto-mar e para lá volta deixando um estrago irreparável como os tsunamis da natureza revolta.
Desgarrar-se da mãe é um processo lento e sem maiores traumas, porque há uma cultura desse apartar-se durante certo tempo de nossa existência, agora, desgarrar-se de um amor tido como verdadeiro quando se revive esse sentimento de resgate do “eu nasci para você”, e de forma violenta como é no adultério, é uma experiência terrivelmente destruidora.
Já foi dito e escrito, em prosa e versos e cantado, clássica e popularmente, que quando amamos endeusamos a pessoa amada. Esse processo de endeusamento é movido por uma força inconsciente que nos move na direção do outro para elevar-lhe à condição de semideus ou Deus mesmo. A mãe, Deusa por excelência, é o símbolo inconsciente do amor e do mito ideal de beleza que subjaz nosso imaginário, tramando o endeusamento da pessoa amada, segundo os arquétipos do amor e do belo que permanecem escondidos e atuando em nossas construções amorosas.
De fato eu vivera isso no meu relacionamento com a mulher que amei.
Eu havia transfigurado o objeto do meu amor, aquela mulher. O resto da humanidade, e mesmo a vontade do Espírito Criador, quando me lançara nesta aventura humana, não contavam mais. Ela era única razão da minha existência. Imagine tudo isso caído por terra por conta de uma traição!
Passamos a parte da vida buscando o amor idealizado inconscientemente pela figura ideal e transfigurada da mãe; quando encontramos esse amor vive-se outra parte do tempo cristalizando a pessoa amada segundo o arquétipo do amor subjacente no universo subconsciente e, assim construímos um ídolo para adorar e um castelo de sonhos para viver em tempos de adoração.
Eu, assim como qualquer um que se aventura nessa experiência amorosa, tornei-me um sujeito cativado pelo amor idealizado com todos os atributos da suprema perfeição, do mais alto valor do belo; estava certo de que todas as suas inseguranças estavam dissipadas pela fantasia de um relacionamento pleno de amor e fidelidade. A outra parte era igualmente eu mesmo na construção do me castelo de amor. Como dissera o Sábio da Antiguidade que um homem apaixonado fica cego e coloca sobre a mulher amada todos os atributos de todas as mulheres do mundo. Assim eu fizera. Porém, quando tudo isso veio por “água abaixo” da maneira como aconteceu, eu me transformei num trapo humano!
O casamento, dentro de uma relação de amor, é um porto seguro. Quem está navegando em alto mar sabe que existe esse ancoradouro. Tem-se a certeza de voltar para . Porém, se uma hora para outra o mar em fúria vem sobre si e desaba a mais terrível das tempestades, destruindo, impiedosamente, as esperanças de voltar à terra firme onde os sonhos, desejos e fantasias de amor ficaram, isso é algo desalentador. Mas não precisa ser o fim.
No inicio de uma separação nessas condições – e quase todas as separações entre casais se dão a partir de um relacionamento fora do casamento – a gente não consegue amar ninguém. Eu, por exemplo, tentei me aproximar de outras mulheres, mas em nenhuma delas encontrei aquilo que tive com àquela a quem devotei meu castelo de sonhos e fantasias. Até a tesão, que é coisa do animal, eu não tinha mais pelas mulheres. Fiquei impotente, também sexualmente.
Isso só acabou quando a vida me trouxe outros amores. Aí aprendi que busca da pessoa amada não se esgota num único amor. É a lei do eterno retorno.

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